domingo, 3 de julho de 2016

Coletivo Ulysses CLPV (Dia 01)

Boa noite, amorecos!
Hoje nós começamos um novo desafio do CLPV. Alguns membros vão estudar a obra Ulysses de James Joyce.
Segue nosso roteiro:

Os links da tese de doutorado do tradutor Caetano Galindo, você encontra Aqui!

Dividiremos com vocês nossos sinceros sentimentos literários nesse desafio e contamos com todos para nos darem força para não desanimarmos.
Será um ano inteiro encarando essa leitura tão importante para a literatura mundial.
Vem com a gente, sem medo!
;)



sexta-feira, 1 de julho de 2016

Atravessando





Olhando as minhas mãos meio ressecadas esta manhã, tive a sensação do tempo. Senti a folha secando, a pedra se moldando sob a água, o pássaro a olhar os pontos no horizonte em que ainda não pousou.
Senti o tempo me atravessando por dentro, trazendo memórias antigas, tudo o que já vivi até hoje e consigo me lembrar com nitidez; a sensação de lembranças que já não consigo recordar mais.
O tempo passando. Eu nele, às vezes tão perdida ainda, tão menina ainda, a quase engatinhar, a ver o mistério e ter aquela curiosidade de tocar nele. Não entender muitas coisas apesar de parecerem tão simples.
Medo e raiva brigando dentro de mim, num confronto corpo a corpo com a esperança e o amor.
A experiência humana é única (e talvez só ocorrerá uma única vez dentro deste espaço-tempo) e penso modos de vivenciá-la plenamente antes que o meu tempo acabe.
Eu o sinto correr por mim. As sensações, há dias, em que estão acordadas. Ao menor detalhe, elas me despertam para a grande novidade do dia após dia. Quero me sentir viva e apenas isso dentro da imensa Criação de Deus, apurar meu olhar, apurar meus sentidos, deixar a sensibilidade fluir apesar de todo o perigo de se machucar, porque o perigo maior é passar pela chance deste espaço-tempo sem querer sentir, sem querer experimentar, sem querer se libertar, sem querer viver plenamente!

Elayne Amorim

Imagem: Google

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Viagens literárias: Mergulho no mar


Era frio, então decidi que era um bom dia pra mergulhar.
Dessa vez escolhi uma praia mais distante, uma que eu nunca havia estado antes.
Também não mergulhei como de costume, por temer a água muito fria, imergi num submarino, o nº1.

Quanto mais eu ia penetrando naquela imensidão, mais ia relaxando... Entrei em cavernas subaquáticas, vi cardumes de tubarões, chacoalhei em correntes marinhas, estacionei em um braço de corais que lembrava um dragão.
De dentro do submarino avistei pelo reflexo, Poseidon com seu tridente,
cavalgando num cavalo marinho, ou talvez fosse numa sereia. Passei aquela tarde toda na companhia de criaturas exóticas, míticas e bonitas. Eram tantas cores, que perdi a noção do tempo... Meus olhos ficaram exaustos e senti que era hora de voltar. Já na superfície, antes de sair do mar, resolvi experimentar a água e não estava fria como eu havia imaginado, estava escaldante. Então me deixei molhar um pouco. Quando me vi de volta em casa, fechei o livro à minha frente, coloquei-o na cabeceira, fechei meus olhos cansados da aventura e adormeci, feito uma menina. 




segunda-feira, 4 de abril de 2016

Onde está a poesia?

ONDE ESTÁ A POESIA?

Procuro-a num olhar, numa esquina, ao raiar do dia até o pôr do sol. Ando a procurar pela poesia, parece ela ter fugido de mim, ou, em mais um capricho seu, brincando de esconde-esconde só para me lembrar que dentro do apesar de tudo cabe ainda um espírito infantil. Ela insiste comigo, tento ser clássica, mas ela me quer subversiva; tento fingir que nem penso nela, mas aí vem ela, de repente, e se exibe pra mim dizendo que não adianta eu fugir, pois em tudo ela está. Basta eu treinar mais um pouco meus olhos e descansá-los no acontecer dos fatos e no deslizar das palavras que constroem, destroem, reconstroem o mundo.



Subversiva

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.

Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.


E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.


E promete incendiar o país.

Ferreira Gullar


MATÉRIA DE POESIA

 


Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia


 O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia


 Terreno de 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia


 Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia 


 As coisas que não levam a nada
têm grande importância 


 Cada coisa ordinária é um elemento de estima
 Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral


 O que se encontra em ninho de joão-ferreira :
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia


 As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia


 Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia


 As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia


 Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia


 Os loucos de água e estandarte
servem demais 


O traste é ótimo
O pobre – diabo é colosso

 Tudo que explique
     o alicate cremoso
      e o lodo das estrelas
serve demais da conta


 Pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada


 Tudo que explique
     a lagartixa de esteira
     e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia


 O que é bom para o lixo é bom para poesia
 Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
     tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
      sabe a destroços


 As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora 


Manoel de Barros